- Qual é o segredo agora, Pedro? fale:
É triste constatar que "os
grandes amores são os desncontrados, que não
têm oportunidade de se gastar", os amores acovardados. As
pessoas com sua gana de entendimento não vivem o
incompreensível, o inaudito. Sabe, eu queria incubar todo o
fraco sentimento e fertilizá-lo para que todo o amor pudesse
acordar os vizinhos. Mas muitos silenciam suas loucuras, seus
prazeres. Me entristece o medo, a
desconfiança. Para quê pensar em planos,
projeções, segurança. Os irresponsáveis
amam irresponsavelmente à vontade, invejando os fracos. Quem
guarda o amor se perde em imemoriais possibilidades não
vividas, nada espera! Eu não tenho nada para esperar, e
tenho tudo agora, ao alcance do meu desejo. Nunca arendi com o
que não vivi, e não olho para os exemplos
fracassados dos outros. É, para muitos, bem fácil
admirar a experiência alheia, é bem fácil
aplaudir a poesia dos errantes sem sentir a dor que lhes custam
suas palavras. Eu não entendo nada, ela acha que entende
tudo. Entre nós tem um vão de incertezas, e isso pra
mim é lindo, é o incompreensível estendendo os
braços, para ela é o incontrolável que lhe
perturba. Ela não sabe, como muitos não sabem, viver
o desconhecido. Para quê entender se basta sentir? Me
confrange o peito a trágica poesia que ela barra ao peito.
Se eu não posso lhe dar o mundo, eu crio, invento um
fantastico mundo, mas ela recusa por não conseguir pôr
a mão. Eu me rendo ao gosto e cheiro dela que me gruda ao
museu das lembranças, me embriago com toda a
perdição, me transformo em Sim, ela diz Não, e
o que há de incontrolável em nós teima em
comungar um desejo. Se não posso amá-la, deixarei ao
largo, para não aprender com ela a virtude dos
temerários. Todos os santos, bêbados, putas e vadias,
ignotos e crianças que há em nós se
querem, mas tudo é censurado e incontrolável. Como
uma canção ininteligível que nos toca eu vou,
vago e soberbo. Em entregações de mim ela me ordena,
me vou sem querer, e fico sem poder. Não quero engrossar as
fileiras dos infelizes junto a ela, quero furar a fila e
levá-la. Quem perde mais, os que erram ou os protegidos
à vida? Viver é uma aventura humana, cheia de
abismos e sodalícios. Muitos covardes estão
sãos, inteiros, intactos, mas os aventureiros à beira
dos destroços podem contar histórias
fantásticas que lhes custaram arrombos na alma. Por
enquanto sigo por aí, sem caminho certo, se queres vir
venha, ou fique, seu belo e seguro caminho pode ser curto. Vou ao
infinito das perdições, e como bom perdido que sou,
podes não me encontrar quando, enfim, resolveres me seguir.
As portas continuam abertas, mas mudam de lugar. Eu guardo-te uma
poesia, se te encontrar pelo caminho entregarei-a, se não,
ela já foi feita, e como muitas poesias, ela é
só uma explosão palavriada de uma angústia,
uma dor que se fez bela.
O que conversaram,
Pedro?
- Olá, como
vai?
- Por aqui
- Vou indo, há muitos "por
aís"...
Vens que ainda é tempo de
felizes bobagens.